Inteligência artificial na indústria: eficiência, produção e decisões mais inteligentes

Como a inteligência artificial na indústria melhora decisões e produtividade sem substituir o conhecimento humano. Veja a visão do CTIO da Randoncorp.

Por César A. Ferreira, Chief Technology Innovation Officer da Randoncorp

 

Nos últimos anos, uma das mudanças que mais tenho percebido nas conversas sobre IA é o amadurecimento das perguntas. Antes, havia muita curiosidade sobre o que a tecnologia seria capaz de fazer. 

 

Hoje, especialmente em ambientes industriais, a discussão está mais próxima da realidade do negócio: que problema queremos resolver, que decisão queremos melhorar e onde a IA pode gerar valor de forma concreta?

 

Essa pergunta faz parte do meu dia a dia à frente da tecnologia e da inovação na Randoncorp. Em um ambiente industrial, adotar uma tecnologia porque ela está em evidência não é suficiente. 

 

É preciso entender o problema que queremos resolver, a qualidade das informações disponíveis e, sobretudo, como aquele recurso pode apoiar as pessoas que conhecem profundamente nossos processos e negócios.

 

É dessa perspectiva que observo o avanço da inteligência artificial na indústria. O potencial dela não está apenas na velocidade de processamento ou na automação de determinadas atividades, mas na possibilidade de ampliar nossa capacidade de compreender o que acontece nas operações e transformar informação em decisões melhores.

 

 

Quando os dados se transformam em decisões

A digitalização trouxe uma nova realidade para a indústria. Hoje, sistemas produtivos e plataformas de gestão geram informações continuamente. Ter dados disponíveis, no entanto, não significa necessariamente saber utilizá-los. O valor aparece quando conseguimos transformá-los em conhecimento que ajude a entender um processo, antecipar uma necessidade ou embasar uma decisão.

 

A inteligência artificial amplia essa capacidade. Ao processar grandes volumes de informações e identificar padrões, a tecnologia acelera análises que, feitas manualmente, levariam muito mais tempo, e que às vezes nem seriam possíveis. Isso abre espaço para enxergar melhorias, ajustar processos e usar recursos com mais inteligência.

 

Mas há uma distinção que considero fundamental: apoiar uma decisão é diferente de tomar uma decisão.

 

Em um ambiente industrial, contexto, experiência e conhecimento técnico continuam sendo determinantes. A IA pode oferecer novos elementos para análise, mas são as pessoas que compreendem as particularidades de um processo, avaliam consequências e dão sentido às informações disponíveis.

 

Essa combinação também nos leva a uma visão mais ampla sobre produtividade. Eficiência não deveria ser entendida apenas como fazer mais em menos tempo. A tecnologia pode assumir ou apoiar determinadas tarefas e, com isso, abrir espaço para que as pessoas se dediquem a atividades nas quais análise, criatividade e conhecimento do negócio têm maior impacto.

 

Por isso, considero que uma das discussões mais relevantes sobre inteligência artificial tem menos a ver com substituição e mais com complementaridade. O avanço da tecnologia aumenta também a importância de desenvolver competências humanas para utilizá-la com senso crítico e responsabilidade.

 

 

Uma década de IA na Randoncorp 

Quando penso na nossa relação com a inteligência artificial, volto a 2016, ano em que começamos a trabalhar de forma mais estruturada com IA na Randoncorp. Naquele momento, a tecnologia ainda estava longe de ter a projeção que ganhou nos últimos anos.

 

Um dos primeiros movimentos aconteceu na engenharia da Frasle Mobility. Tínhamos ali uma quantidade enorme de dados acumulados ao longo de décadas de testes e desenvolvimento de materiais. Queríamos entender como todo esse conhecimento poderia ajudar nossos engenheiros a desenvolver novos produtos.

 

A tecnologia de então oferecia possibilidades mais limitadas do que temos hoje. Além disso, percebemos logo que, antes de avançar com a IA, precisávamos olhar para a qualidade dos dados. Várias informações estavam distribuídas em diferentes sistemas, formatos e até registros físicos. Foram necessários anos de trabalho para organizar e qualificar o material.

 

Faço questão de recuperar essa história porque ela diz muito sobre como eu entendo a inteligência artificial. A tecnologia pode mudar, e mudou bastante desde 2016, mas a pergunta continua parecida. Onde ela pode ajudar de verdade o negócio? Para mim, seu potencial fica mais evidente quando conseguimos aproximá-la daquilo que fazemos todos os dias, na engenharia, no desenvolvimento de produtos e na manufatura.

 

Em 2024, demos outro passo com a criação do Brain. O programa veio para organizar, em uma estrutura corporativa, algo que já vínhamos construindo havia anos. Passamos a coordenar as iniciativas de IA entre diferentes áreas e empresas da Randoncorp, com atenção à governança, à segurança dos dados e às condições necessárias para ampliar seu uso.

 

O Brain também nos ajuda a disseminar conhecimento, ampliar o acesso a ferramentas homologadas e preparar as pessoas para trabalhar com essas novas possibilidades. Mas é importante lembrar que ele não marca o início da nossa relação com a inteligência artificial. O programa é resultado de um caminho que começou anos antes, com experiências e aprendizados que nos trouxeram até aqui.

 

 

O próximo avanço também será humano

Quando olhamos para o futuro da inteligência artificial na indústria, é natural pensar em tecnologias cada vez mais sofisticadas. Eu acredito, porém, que parte importante dessa evolução acontecerá na forma como as organizações aprenderão a trabalhar com elas.

 

Ter acesso à IA tende a ser cada vez menos um diferencial por si só. A diferença estará na capacidade de incorporá-la aos processos, conectá-la à estratégia e direcioná-la para problemas que realmente importam para o negócio.

 

Isso exige tecnologia, mas também cultura. Exige pessoas dispostas a experimentar novas possibilidades, capazes de fazer boas perguntas e preparadas para avaliar criticamente as respostas produzidas pelas ferramentas. Exige, ainda, governança para que a velocidade da inovação não se sobreponha à segurança e à responsabilidade.

 

Na Randoncorp, inovação e tecnologia estão entre os princípios que orientam a companhia, ao lado da valorização e do respeito às pessoas. Com mais de 77 anos de história e produtos em mais de 125 países, a empresa ajudou a transformar a forma como pessoas e riquezas se movimentam. Esse trabalho não para. A Randoncorp evolui a cada novo desafio para continuar criando soluções que respondam às necessidades de hoje e antecipem as transformações de amanhã. 

 

A inteligência artificial certamente fará parte desse futuro. Mas seu impacto não será definido apenas pela evolução dos algoritmos. Será determinado também pela nossa capacidade de transformar tecnologia em conhecimento e conhecimento em melhores escolhas.

 

É por isso que vejo a IA menos como um destino e mais como uma nova capacidade que estamos incorporando à indústria. Quanto melhor soubermos combiná-la à experiência e à inteligência das pessoas, maior será nossa capacidade de gerar valor, inovar e construir negócios preparados para os desafios que ainda virão.



Foto: Jeff Souza